Entenda como os gastos públicos interferem nos juros que pagamos

19, fevereiro, 2014
Artur Salles Lisboa de Oliveira

O referencial da taxa básica do mercado

A taxa SELIC é calculada a partir da média ponderada do custo das operações de financiamento lastreados nos títulos públicos vendidos no mercado. Como o governo federal é, em tese, o melhor pagador da praça, o quanto for oferecido para captar recursos dos investidores será o referencial para empréstimos e financiamentos de toda sorte.

Gastos públicos elevados

Quando o governo gasta muito, seja para a manutenção de suas estruturas e funcionários ou para grandes obras de infraestrutura, é necessária a captação de recursos no mercado para que a máquina pública continue funcionando no ritmo desejado. O problema é que um governo gastador seca os recursos disponíveis no mercado de tal sorte que a oferta de capital para outras finalidades se torna menor.

E nesse contexto, os juros se elevam por dois motivos: primeiro porque como dito anteriormente, em face da escassez de recursos devido à forte procura do governo por capital, os juros sobre financiamentos, empréstimos, dentre outras operações, se elevam consideravelmente, o que inibe o consumo das famílias.

Além disso, quando os investidores constatam que o endividamento do governo é crescente e pode alcançar patamares incontroláveis, a tendência natural é que o mercado se torne mais exigente na aquisição de novos títulos, demandando juros maiores. Essa elevação da taxa básica de juros tem forte impacto na parte pós-fixada da dívida pública, além de outros desdobramentos que citarei a seguir.

Fluxo de capitais e câmbio

Ao elevar os juros para satisfazer os investidores, o país passa a ser cobiçado pelo capital especulativo, cuja finalidade é meramente obter ganho financeiro pelo diferencial das taxas de juros entre dois países. Essa característica temporária do capital que ingressa na economia tem grande impacto por não servir de funding para a execução de projetos de médio e longo prazos.

Sem recursos confiáveis para a execução de grandes obras que elevem a capacidade produtiva da economia, a oferta não se amplia e o temor inflacionário se torna permanente, já que o consumo não é afetado apenas pela taxa de juros sobre dívidas contraídas, mas especialmente sobre o aumento da renda da população.

Por outro lado, o forte ingresso de capital em decorrência da elevada taxa de juros faz com que a moeda nacional se mantenha forte diante do dólar, o que inibe a contaminação inflacionária mediante custos mais elevados das matérias-primas utilizadas pelo setor industrial, por exemplo.

O pior dos cenários

Um dos parâmetros para analisar a capacidade de um governo de honrar seus compromissos é a relação entre a dívida pública e o PIB (quanto maior a atividade econômica, maior a arrecadação de tributos), sendo que uma combinação de gastança irresponsável e perda de credibilidade de um país pode fazer com que os juros se elevem tão acentuadamente que as agências de classificação de risco passarão a sinalizar o risco de um calote.

Nesse cenário, haverá uma fuga tão forte de capitais, que a moeda local sofrerá uma acentuada desvalorização, o que acarretará em um forte processo inflacionário. Além disso, até a estabilização do pânico inicial, a falta de investimentos escasseará a disponibilidade de recursos na economia, fazendo com que os empresários produzam muito pouco e o consumo das famílias seja pífio.

O contexto descrito é o pior resultado que pode ocorrer em decorrência de gastos públicos desenfreados.

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